Aprenda · 05
Por que a transparência do Estado ainda é limitada
Sete motivos que deixam dados públicos difíceis de achar, de entender ou fora do ar, e como o site lida com cada um.
O Brasil tem boas leis de transparência. A Lei de Acesso à Informação (Lei 12.527/2011) obriga todos os órgãos públicos a responder pedidos de cidadãos e a publicar dados sem que ninguém peça. Mesmo assim, boa parte do que importa ainda é difícil de achar, de entender ou simplesmente não é publicada. Esta página explica os principais motivos, com exemplos e fontes.
Nota editorial: os exemplos abaixo envolvem governos e partidos diferentes. O objetivo é mostrar mecanismos, não acusar um grupo político.
1Sigilo usado além do necessário
A LAI permite restringir informações pessoais por até 100 anos (art. 31). A regra existe para proteger a intimidade das pessoas, mas também foi usada para negar acesso a documentos de interesse público, como agendas e registros de visitas a autoridades. Segundo levantamento publicado pela Gazeta do Povo em julho de 2026, a taxa média de pedidos negados pelo governo federal passou de 27,3% na gestão anterior para mais de 32% na atual.
Outro ponto: quando um pedido é negado, o recurso final é julgado pela Controladoria-Geral da União, que faz parte do próprio Poder Executivo. Não existe um órgão independente para decidir esses casos, como há em outros países.
Como o site lida: mostramos quando um dado foi negado ou está sob sigilo, em vez de esconder a lacuna.
2A LGPD usada como escudo
A Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) protege dados pessoais, mas não proíbe divulgar informações sobre o exercício de uma função pública. O STF já decidiu que a remuneração de servidores pode ser divulgada com o nome (ARE 652.777, Tema 483). Ainda assim, a LGPD é citada com frequência para negar pedidos de informação e para tirar dados de portais.
Como o site lida: a página de metodologia explica o que a LGPD permite e o que não permite, com base na lei e nas decisões do STF.
3Dinheiro público com caminho difícil de rastrear
Uma parte crescente do orçamento federal é decidida por emendas parlamentares. A Transparência Internacional estima que elas passam de R$ 60 bilhões no orçamento de 2026.
- Emendas de relator ("orçamento secreto"): não mostravam qual parlamentar tinha indicado o dinheiro. O STF declarou esse modelo inconstitucional em dezembro de 2022 (ADPFs 850, 851, 854 e 1014).
- Transferências especiais ("emendas Pix"): criadas pela EC 105/2019, mandam dinheiro direto para estados e municípios sem um projeto definido na origem. Em 2024 o STF passou a exigir que esses repasses sejam rastreáveis, e em 2026 determinou investigação da Polícia Federal sobre indícios de crimes na destinação.
Como o site lida: o perfil de cada parlamentar mostra as emendas individuais que ele indicou, com destino, área e valores empenhado e pago, a partir do Portal da Transparência. Emendas de bancada e de comissão aparecem só no Portal, porque não têm um autor individual.
4Cada órgão publica de um jeito
A União, os 26 estados, o Distrito Federal e mais de 5.500 municípios publicam dados em formatos diferentes, muitas vezes em PDF ou em páginas que não podem ser lidas por programas. Nas avaliações da Escala Brasil Transparente, feitas pela CGU, a maioria dos municípios avaliados não cumpria regras básicas da LAI.
Como o site lida: começamos pelos estados que publicam dados abertos de qualidade e mostramos em cada estado o que falta.
5Falhas e interrupções na publicação
Mesmo quando há dados abertos, eles podem ser interrompidos ou alterados:
- Em 2020, a Medida Provisória 928 suspendeu os prazos da LAI durante a pandemia. O STF suspendeu essa regra (ADI 6351).
- No mesmo ano, o Ministério da Saúde mudou a forma de divulgar os dados de covid-19 e o STF determinou que a divulgação completa fosse restabelecida (ADPF 690).
- APIs oficiais às vezes deixam de entregar parte dos dados. Usuários relatam, por exemplo, que a API da Câmara não devolve votos individuais de votações recentes. Nós conferimos isso toda semana de forma automática.
Como o site lida: guardamos uma cópia de cada coleta. Se um dado for apagado ou alterado na fonte, conseguimos mostrar o que estava publicado e quando.
6Justiça com pouca informação aberta sobre as partes
A base nacional de processos do CNJ (DataJud) não traz os nomes das partes. Assim, não existe um jeito oficial de buscar "os processos de um político". Muitos casos também correm em segredo de justiça.
Como o site lida: só publicamos processos depois de revisão humana, sempre com o status exato (investigado, réu, condenado, absolvido) e o link para a decisão.
7Influência sem registro
O Brasil não tem uma lei que regulamente o lobby, ou seja, que obrigue o registro de quem se reúne com autoridades para defender interesses. Um projeto sobre o tema foi aprovado pela Câmara em 2022 e seguiu para o Senado. (Verificar a situação atual antes de publicar.) As agendas públicas de autoridades existem (sistema e-Agendas, da CGU), mas nem sempre são preenchidas por completo.
O retrato geral
No Índice de Percepção da Corrupção de 2025, publicado em fevereiro de 2026 pela Transparência Internacional, o Brasil teve 35 pontos de 100 e ficou em 107º lugar entre 182 países, sua pior colocação na série. O mesmo relatório registra avanços, como a ampliação da fiscalização das emendas e a rejeição da "PEC da Blindagem" pelo Senado em 2025.
Fontes
- Lei 12.527/2011 (Lei de Acesso à Informação) e Lei 13.709/2018 (LGPD).
- Gazeta do Povo, "Como o governo brasileiro usa as leis de transparência para esconder dados" (jul. 2026).
- STF: ARE 652.777 (Tema 483); ADPFs 850, 851, 854 e 1014; ADI 6351; ADPF 690.
- Transparência Internacional Brasil, Índice de Percepção da Corrupção 2025 (fev. 2026).
- CGU, Escala Brasil Transparente.
- O Povo, "PF vai investigar indícios de crimes na destinação de emendas Pix, decide Dino" (ago. 2026).